Saúde: corpo e mente em equilíbrio

Cuidar de quem cuida

Há um ano usamos nosso palco para falar sobre algo que ainda recebe menos atenção do que deveria no food service: quem cuida de quem passa os dias cuidando de um negócio?

Cozinhas são ambientes intensos. Jornadas longas, pressão, calor, horários invertidos, finais de semana trabalhando e a responsabilidade de fazer o negócio funcionar todos os dias. Do outro lado do balcão existe um cliente esperando seu hambúrguer. Deste lado, existe uma pessoa.

Foi pensando nela que lançamos, no Prêmio Hambúrguer Perfeito de 2025, um projeto de acesso gratuito a atendimento psicológico para profissionais do setor. Uma homenagem a Paulo Yoller, inspirada pela generosidade com que ele viveu e pela forma como ajudou tantas pessoas ao seu redor. Transformar essa inspiração em acesso a cuidado foi uma maneira de fazer esse legado continuar alcançando gente.

Desde o início, o projeto foi estruturado para que esse cuidado fosse conduzido com responsabilidade profissional. Annebele Gesser, psicóloga responsável pela iniciativa, coordena a triagem e os atendimentos, acompanhando de perto uma realidade que, ao longo deste primeiro ano, revelou situações de sofrimento, sobrecarga e vulnerabilidade muito mais profundas do que os números poderiam mostrar.

  • 365 dias
  • + de 150 consultas psicológicas realizadas
  • Pacientes atendidos em 10 estados
  • Atendimento disponível para profissionais de todo o território nacional

Mais do que contabilizar consultas, o projeto criou um espaço profissional de escuta para pessoas que muitas vezes passaram anos sustentando jornadas, equipes, famílias e negócios enquanto elas próprias precisavam de ajuda.

Para esta matéria, Annebele compartilhou conosco um balanço desse primeiro ano e relatos de pacientes que autorizaram que suas experiências fossem apresentadas aqui, preservando suas identidades. São depoimentos anônimos, mas histórias reais, acompanhadas dentro de um projeto conduzido por uma profissional habilitada.

E talvez sejam justamente essas vozes que melhor expliquem o que essas consultas significam.

Hoje está prestes a completar 90 dias que estou sem beber. E eu tenho certeza de que, sem o apoio da Anne e da terapia, eu não teria conseguido chegar até aqui.
Meus filhos falam que nunca me viram tão feliz. [...] Eu descobri que ainda tenho muita vida pra viver.
Hoje fazem 5 meses que eu não quero mais morrer.

Em alguns casos, os atendimentos começaram quando essas pessoas já estavam em situações extremas de sofrimento. Em outros, depois de anos convivendo silenciosamente com problemas que atravessavam trabalho, relações, uso de álcool, exaustão e a própria vontade de continuar.

Annebele conta que uma frase ouvida durante o projeto nunca mais saiu de sua cabeça:

Para ela, a frase ajuda a revelar aquilo que nem sempre enxergamos quando olhamos para uma operação funcionando. Antes do cozinheiro, do atendente, do gestor ou do dono da hamburgueria, existe uma pessoa. Alguém que pode estar cansado, com medo, endividado, sozinho, tentando recomeçar ou acreditando que aquele trabalho é sua última oportunidade.

“A cozinha é a minha última chance de dar certo.”

“Saúde mental não é luxo, nem fragilidade. É cuidado. É escuta. É presença. E, algumas vezes, ser escutado no momento certo pode mudar tudo.”

Annebele Gesser,
psicóloga responsável pelo projeto.

Se você se identificou com essas histórias, não carregue esse peso sozinho. O apoio é gratuito e sigiloso. Saiba como pedir ajuda →

CorpoO corpo também pede cuidado

A conversa sobre saúde mental inevitavelmente encontra a saúde física. A mesma rotina capaz de levar à exaustão emocional também cobra seu preço do corpo.

Amanda e Fabrício conhecem essa realidade de dentro: viagens, eventos e, obviamente, muitos hambúrgueres. Nos últimos anos, os dois passaram por processos importantes de cuidado com a saúde sem abandonar o trabalho ou esperar que a rotina se transformasse em algo que ela nunca será.

A Dra. Djeime Benfica, médica que acompanha o HP e também atende outros profissionais do food service, percebe desafios recorrentes nesse público:

“O food service é um universo particular, com desafios fisiológicos muitas vezes subestimados: turnos invertidos que desorganizam o ritmo circadiano, alimentos hiperpalatáveis que estimulam continuamente as vias de recompensa e jornadas que dificultam até estabelecer horários de refeição.”

Com o tempo, essa combinação pode favorecer alterações metabólicas e aumentar o risco de doenças preveníveis, como obesidade, hipertensão e diabetes.

Por isso, sua orientação parte da realidade de quem trabalha no setor:

“Cuidar da saúde não exige um ambiente perfeito. Exige estratégia.”

Isso significa atuar nos pontos de maior impacto, como alimentação, sono, movimento e hidratação, considerando a realidade de cada pessoa. “Saúde física e mental não podem esperar a correria passar. Elas precisam caber na rotina que existe.”

Não sabe por onde começar?
Dra. Djeime te orienta: “comece pelo básico”.

Estruture suas refeições com nutrientes para te sustentar e garantir energia durante o turno.

Beba água durante o trabalho. Mesmo uma desidratação leve pode afetar disposição e concentração.

Proteja seu sono. Mesmo em horários invertidos, busque uma janela consistente de descanso. O sono participa da regulação do apetite, da recuperação física e de outros processos essenciais à saúde.

RecomeçoTudo que há pra viver

Para André Datrato, do Burger Crew e Tratto Butter, perceber que alguma coisa precisava mudar aconteceu quando o corpo começou a impor seus próprios limites.

Enfrentando diferentes comorbidades associadas à obesidade grau 3, André chegou a trabalhar sentado diante da churrasqueira porque seu corpo literalmente já não suportava permanecer em pé durante toda a operação.

A lembrança ainda funciona como referência nos dias difíceis.

“Cheguei num ponto que eu não queria mais ‘emagrecer’... eu queria viver.”

O processo ainda está acontecendo. Há dias bons e ruins, mas a constância já representa mais de 60 quilos eliminados e, principalmente, uma relação diferente com a própria saúde. Ela passou a ser o caminho para estar presente por muitos anos para as pessoas e para os projetos que ele ama.

Quando olha para trás, André encontrou uma linguagem que qualquer empreendedor entende. Ele costuma dizer que “quebrou” no CPF.

“Hoje entendo que construir um grande negócio enquanto você se destrói no processo não é sucesso. A empresa precisa de liderança, a família precisa de presença, mas antes de tudo isso existe uma pessoa que também precisa ser cuidada.”

Agora ele sabe que, se um CNPJ quebrar e ele tiver saúde, ele cria outros.

“Mas eu, André, não posso quebrar.”

MovimentoBora!

Na Mess Burger Club, sob o comando de Dani Rodrigues, essa mesma conversa encontrou um caminho leve.

A hamburgueria já vinha funcionando como ponto de encontro de corredores quando Dani percebeu que havia ali uma comunidade interessante. Para comemorar o aniversário da casa, criou o Bora Correr/Bora Comer. A experiência funcionou tão bem que passou a fazer parte do calendário fixo da marca.

Por trás da corrida existe uma ideia simples: romper com a lógica de compensação que frequentemente coloca exercício e comida em lados opostos.

“Queríamos tirar um pouco aquela ideia da culpa e do merecimento. ‘Eu corro para comer hambúrguer.’ Não. Eu corro e como hambúrguer. Eu faço várias coisas que meu corpo gosta e que fazem bem para ele.”

Corre quantos quilômetros quiser. Come hambúrguer. Dança até o fim da noite. Não como prêmio por ter se exercitado nem como punição pelo que comeu. É só uma proposta de vida leve que precisa encontrar equilíbrio para ser sustentável.

Um ano depoisPara continuar cuidando

Um ano depois, talvez a maior confirmação que poderíamos ter sobre o projeto lançado no PHP25 seja também a mais difícil: ele era necessário. E continua sendo.

Mais de 150 consultas depois, existem pessoas dormindo melhor, reorganizando suas vidas, reconstruindo relações, enfrentando dependências, voltando a sonhar e, em alguns casos, simplesmente escolhendo continuar.

O projeto continua aberto para quem precisa. E também continua precisando de quem pode ajudar. Cada pôster vendido financia uma consulta psicológica para um profissional do food service. Comprar um pôster é ajudar essa corrente a continuar.

Porque podemos discutir faturamento, expansão, CMV, delivery, marca, técnica e o futuro do hambúrguer por muitas páginas. Mas o futuro de qualquer negócio continua dependendo das pessoas que estarão aqui para construí-lo.

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